Biological

Fic por: Natashia Kitamura
Vencedora do Challenge #003 do All About Fics
Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios.


1.



Desde pequena tudo o que eu sempre imaginei foi quem seria o meu príncipe encantado. Claro, para mim, Henry Richards era simplesmente o melhor pretendente para mim. Claro que isso era quando eu tinha apenas 8 anos.
Não me recordo muito bem da minha vida antes disso. Não que valesse a pena lembrar, já que em toda a minha vida eu morei no mesmo lugar que outras crianças, assim como eu, não tinham pais.
Não tenho vergonha de dizer que sou órfã, quem deveria ter vergonha são meus pais, que me abandonaram. Porém, mesmo sabendo que eles me deixaram, não consigo sentir um pingo de raiva de qualquer um dos dois. Mesmo estando sozinha e sendo sempre taxada de esquisita pelos meus colegas, mesmo nenhum casal querendo me adotar, - não que eu fizesse muito esforço para ser adotada - mesmo que eu ficasse triste quando via alguma família feliz com seus filhos biológicos... Não passava pela minha cabeça que meus pais queriam me deixar sozinha. Talvez eles não tivessem outra opção.
Sei que devo ser a única órfã no mundo que ama os pais mesmo sem conhecê-los. Mas essa sou eu.

2.



Tudo começou a ficar mais complicado quando eu completei meus 16 anos. Toda garota debuta com 16 anos e o orfanato onde eu vivia, as freiras nos mandavam para escolas normais - estaduais - como qualquer outra criança, nos fazendo conviver com pessoas que tinham pais.

Flashback

- O que você comprou pro seu pai, Julie? - ouvia Blake perguntar para nossa amiga.
Vejo Marie lhe mandar um olhar feio e então olhar para mim, fazendo com que Blake colocasse as duas mãos na boca, escondendo-as de mim.
- Desculpe. - murmura com a voz abafada.
Abro meu sorriso carinhoso e balanço a cabeça:
- Não precisam se preocupar comigo, está tudo bem.
As três se entreolham receosas e lentamente voltaram ao assunto.

Fim do Flashback

Tecnicamente, eu sabia que elas andavam comigo porque tinham dó de mim, afinal,os rumores rondavam a escola. Era óbvio que o assunto favorito dos alunos eram as pessoas sem pais. Mas eu era ainda mais atiçada. Além de eu ser órfã, eu era um tanto quanto anti social e calada, o que fazia todos pensar que eu desprovinha de alguma doença genérica. Mito e fofocas, claro.
Fora assim durante todo o meu período escolar. Até que eu completei meus 18 anos há dois meses. Dezoito é uma idade muito legal, na minha opinião. No orfanato, as madres não gostavam de nos deixar sair sozinhos depois de um determinado horário, então ou saíamos com responsáveis ou com alguém maior de idade. Os maiores ou entravam na faculdade e moravam no campus e a partir daí seguiam suas vidas sozinhos ou então preferiam continuar no orfanato e esperar por algum casal que quisesse filhos já grandes. Raridade, juro. Desde que comecei a pesquisar sobre adoções, apenas uma garota de 19 anos fora adotada.
Para a não surpresa das freiras, eu não queria ser adotada. Queria meus pais. Meu pai. Minha mãe. De sangue. Furtei alguns dados cadastrais na sala da madre superiora e demorei dois meses para descobrir o 'paradeiro' do meu pai. Minha mãe havia simplesmente sumido do mundo, mas nada que uma pergunta ao papai não desfaça este mistério.
E aqui estou eu. Parada em frente à uma casa até que normal. Grande. Olho a caixa de correio:
Caixa do , se for contas, dê a volta.
Olho o papel. Suspiro. Era ali.

3.



Sigo rapidamente até a porta de entrada e toco a campainha. Coloco o papel dentro do casaco cinza do uniforme. Ajeito a boina do conjunto na cabeça e esfrego as mãos dentro das luvas de couro de segunda mão dadas pela escola para os órfãos e em seguida as protejo no bolso.
Olho para o lado afim de ver se havia alguma movimentação da casa e molho os lábios que rapidamente se secavam com o frio que fazia. Aperto-os e resolvo tocar a campainha mais uma vez.
- Já vou! - ouço de dentro da casa. Balanço minha perna direita. Isso era sinal de que eu estava nervosa. Eu sempre balança a perna quando estava nervosa com algo. É como se fosse um tique em pé.
Olho mais uma vez para o lado e suspiro, soltando a fumaça branca da minha boca. Um leve vento, porém congelante, corta meu rosto, jogando meus cabelos para ele, me fazendo tirar a mão direita do bolso e o levando até minhas madeixas.
Não evito pensar em como seria ele, não fisicamente, isso eu já sabia. Afinal, é famoso. Daquela banda que todo mundo gosta, menos eu. Nunca fui tão chegada assim em música, o que sempre foi motivo para falarem ainda mais de mim. Quem não gosta de música afinal? Eu não tanto.
Ouço o barulho da porta ser destrancada e o tal do aparecer por trás dela, me olhando levemente surpreso. O tal do meu pai me olhando levemente surpreso.

4.



- Não quero comprar cookies, obrigado. - ele torna a fechar a porta, mas eu rapidamente digo:
- Não vim para vender cookies. Nem nada.
Ele volta a abrir a porta e então me olha com uma sobrancelha levantada:
- Uma fã?
Nego com a cabeça.
- Hm. Não consigo imaginar algum outro motivo de vê-la parada em minha porta. Não deveria estar no colégio? - olha meu uniforme.
- Na verdade, acabei de sair dele. - ele nada diz, respiro fundo. Sentia meu coração bater aceleradamente, e as borboletas de meu estômago despertarem e voarem sem parar em forma circular. Era melhor que eu fosse direto ao assunto. - Hm... Eu sou sua filha.
Ficamos em silêncio por um longo tempo. Ele me olhava com a mesma expressão, até mudar o peso do corpo para a outra perna e olhar para o céu e então voltar a me encarar:
- Como é que é?
Para facilitar o raciocínio dele e evitar que fechasse a porta na minha cara quando eu tentasse explicar, retiro o papel do meu bolso e lhe entrego. Ele o pega ainda olhando para mim desconfiado e então desvia o olhar para o que estava em mãos. Vejo-o ler de acordo com que sua íris ia de um lado para o outro em seu globo ocular.
- Isso é uma brincadeira? Algum programa? - ele coloca a cabeça para fora da casa à procura de alguma câmera escondida, mas eu nego com a cabeça. - De onde você surgiu?
- Orfanato Peace. Pelo menos fora lá que eu morei desde que me conheço por gente.
- Isso só pode ser brincadeira. - ele murmura. - Olha só, eu não tenho filha. Eu sou solteiro e nunca me casei.
- E nunca transou?
Ele arregala os olhos e abre a boca pasmo:
- Eu não vou ter este tipo de conversa com uma garota da sua idade.
- Certo, então podemos fazer um teste? Por favor. - junto as mãos em forma de suplico e ele tenta dizer algo, mas rapidamente o corto. - Olha, pelo menos com ele eu tenho certeza de que você não é meu pai e eu desisto de achar ele, ok?
O vejo olhar para o papel e então para mim novamente.
- Acho que não posso te ajudar, sinto muito. - e me devolve a folha.
Deixo meus ombros caírem e então abaixo a cabeça, encarando o chão. Aperto os lábios e pego a folha que ele estendera para mim. O vento passa novamente por nós e eu mais uma vez retiro os cabelos que vinham em meu rosto dele.
- O que é isso? - ele aponta para um ponto no dorso do meu pescoço.
- Como?
- Posso? - ele aponta para o local e eu levanto os ombros, ele se aproxima e afasta meu casaco e a gola de minha camisa social azul clara. O vejo então se afastar boquiaberto. O olho confusa e aguardo ele dizer que faria o teste de DNA.

5.



Positivo. Dera positivo. Obviamente ele recebera a notícia antes de mim, já que eu estava no colégio fazendo minha prova final e ele... Bom, ele não deveria estar fazendo nada, pois fora pegar o resultado e encontrou comigo na saída da escola.
Eu ouvia as meninas irem até ele e pedir por fotos e autógrafos em seus cadernos. Fiquei parada numa boa distância o observando sorrir e ser simpático com elas. Demorou cerca de dez minutos até ele vir até mim com as mãos no bolso de seu casaco.
- Vamos dar uma volta?
Concordo com a cabeça e seguimos para o carro dele. E que carro! Durante toda a viagem ficamos calados, até ele me entregar o envelope com o resultado e eu ver o positivo gravado ali. Em negrito. Nada falei. Voltei a folha para dentro do envelope e me manti calada até pararmos no Franz e nos sentarmos num lugar mais privado. O vejo colocar as duas mãos sobre a mesa e cruzar seus dedos.
- Então... - ele começa. Fico calada com minhas mãos em cima de minhas pernas. - Como você descobriu?
Levanto os ombros. Olho para o lado. De repente toda a coragem que eu havia juntado durante anos se fora, me deixando sozinha com minha insegurança.
- Eu... Eu vi nos meus registros e perguntei algumas coisas para algumas pessoas e acabei de alguma forma chegando em você.
O olho de relance e o vejo me encarar atentamente, como se quisesse achar algo por trás de mim.
- E... Você sabe quem é sua mãe?
- Você não sabe? - pergunto surpresa. Claro, o que mais eu podia esperar de um superstar que mal sabia que tinha uma filha?
O vejo despencar e ser pego de surpresa com a minha resposta-pergunta e se manter calado, provavelmente pensando que resposta era melhor para essa questão. Até que então ele suspira derrotado:
- Vamos ser sinceros, tudo bem? - concordo com a cabeça. - Eu nunca fui uma pessoa de relacionamentos. Então pesarosamente, eu não sei quem é sua mãe.
Concordo com a cabeça.
- O que você faz? - ele tenta mudar de assunto, o que não adiantou muito. Levanto os ombros:
- Estudo.
- E o que pretende fazer depois disso?
- Continuar estudando. Preciso fazer uma faculdade.
- Sim, sim, claro. - ele passa a mão pelos cabelos. Nos mantemos calados. Fico o encarando, esperando que ele quisesse, não sei, fortalecer nossos "laços familiares", mas aparentemente, meu pai é tão lerdo quanto eu sou. - Onde mora?
- Num orfanato na zona leste.
- Zona leste? - ele levanta as sobrancelhas. Concordo com a cabeça. - E... Você não vai sair de lá?
- Para onde eu iria?
Ele suspira e passa a mão na nuca murmurando coisas que eu não consegui ouvir.
- Desculpe, não entendi.
- Não, não. Não foi nada. - ele levanta a cabeça rapidamente. - Hm... Bom. Eu sou seu pai. Então eu tenho que ter uma certa responsabilidade por você.
Nada digo. Claro que isso não era cem por cento verdade, já que eu tenho 18 anos. Mas eu não queria mais ficar no orfanato. Eu queria ficar com meu pai.
- Você... Gostaria... - ele mexe a mão e eu não me movo. - Você sabe, de morar comigo e tudo mais?
- Como uma família de verdade?
Ele não parecia ter uma resposta para isso.
- Sim. Uma família de verdade.

6.



- Que tal uma calça? - ele olha para o lado da loja onde haviam diversas prateleiras com vários modelos de jeans.
- Mas eu gostei dessa saia... - olho para baixo, analisando a peça em meu corpo.
- Nada contra. - ele diz rapidamente. Levanto o olhar para ele e ele encarava minhas pernas. - , você está fazendo de novo.
- Desculpe. - ele desvia o olhar. - Estou imaginando outros homens fazendo o que eu faço com você.
Sinto minhas bochechas queimarem rapidamente, provavelmente mostrando a vermelhidão nelas.
- Tudo bem. - eu me viro e volto para o provador, onde coloco minha calça de volta.

- , está fazendo novamente. - murmuro quando comprávamos uma calça. De tecido. Ele encarava minhas costas e então bufa, balançando a cabeça e passando a mão no rosto.
- É espontâneo, juro que não há maldade.
- Certo. - digo com as mãos na cintura. - Então...?
Ele se endireita e me olha surpreso.
- O quê?
- O que acha? Você queria uma calça, não é? Como estou?
- Bom... - o vejo passar a mão na nuca sem graça. - Não há algo menos apertado?
- Não está apertado.
- Certo.
Nos mantemos calados.
- , se você não gostou, pode falar.
- Eu não gostei.
Ele foi direto demais. Abro a boca e então a fecho, voltando para dentro do provador e saindo com a minha roupa normal.
- Acho melhor comprarmos meia calças. Para usar debaixo dos shorts e saias.
- Ótimo, ótimo. Boa ideia. - ele se levanta rapidamente com as mãos no bolso e caminhamos para fora da loja novamente sem sacolas nas mãos.

- Viajar o mundo é legal. - murmurava do meu lado, enquanto estávamos deitados no jardim de casa à noite. Ele disse que gostava de olhar para o céu quando ele estava bem estrelado, porque o fazia filosofar e pensar sobre a vida. Ele tinha razão. Não que eu tivesse muito o que pensar sobre a vida, mas pelo menos agora eu sabia que meu futuro estaria bem melhor. - Você não enjoa da vida.
Me mantenho calada. O sinto se mexer e quando olho para o lado, ele está me encarando.
- Hey... - ele sussurra e eu presto atenção. - Faria mal se... Hm... Você... Sei lá, me chamasse de pai?
Arregalo os olhos. Isso era algo que eu nunca pensei que fosse ouvir. Quero dizer, nunca imaginei que ele tivesse vontade de ser chamado de pai, já que deixou claro que nunca pensou em ser em um.
- Eu sei que soa esquisito. - ele volta a encarar o céu. - Acontece que desde que vi o resultado daquele teste, me pego imaginando como seria.
Fico olhando para ele, até o ver virar o rosto para mim.
- Então?
- Claro... Pai. - sorrio ao dizer a palavra cuidadosamente e o vejo abrir a boca surpreso e então fechá-la sorrindo. Me encara por mais alguns segundos e então volta a encarar o céu. Com o mesmo sorriso. O mesmo sorriso que o meu.
- Eu vou ser o pai que nunca imaginara ter. - ouço de repente e o olho surpresa. - Eu prometo filha.

Fim

Nota da autora: Fazia um tempo que eu não escrevia uma fic do McFly, então vi a oportunidade neste Challenge. Eu espero mesmo que as juízas gostem. Mas o que vale é a intenção e eu fiquei mesmo muito feliz de ter escrito ela! Espero que gostem tanto quanto eu!
Natashia xx

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