Christmas Lights

Fic por: Rays Fletcher
Vencedora do Challenge #004 do All About Fics
Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios.


Coloquem para tocar, Christmas Lights do Coldplay.

Encarei o teto mais uma vez, já ao ponto de enxergar pequenas manchas reluzentes. Bufei alto e me levantei da cama, fazendo o caminho até o banheiro da minha suíte. Era dia 24 de dezembro e aquilo estava me matando. O fato de passar o natal longe de estava me matando. Isso tudo por causa de dois nada pequenos problemas: a família e a família . Nossas famílias eram o problema. O fato era que eu não me dava muito bem com os meus familiares e havia me convencido a tentar resgatar minha relação com minha família nesse Natal, mas ele não havia me dito que ele não iria passar a tão esperada data conosco. Meus pais odiavam o fato de eu namorar há anos e isso gerou conflitos e mais conflitos entre minha família e . Como a mãe dele fazia questão de passar o Natal com o filho querido, não tivemos outra escolha a não ser passar o Natal separados. Iria ser o primeiro Natal longe de , o primeiro Natal em que eu me sentiria “completamente incompleta”.
Liguei a torneira e juntei minhas mãos, deixando acumular água no local e logo depois, jogando o conteúdo em meu rosto. Me olhei no espelho e fiquei imaginando como será que minha família reagiria com minha volta repentina. Eu estava tão diferente de quando eu tinha dezoito anos. Meus cabelos azuis se foram, as roupas e atitudes rebeldes também. Mas minha personalidade forte e teimosa ainda estava intacta. Saí do banheiro, trombando com aqueles olhos que eu não queria deixar. Aquele brilho intenso que eu adorava, aquelas íris penetrantes que me encaravam tristes e decepcionadas. sorriu triste e depositou um beijo carinhoso em minha testa, sorri de lado juntando nossos corpos e o agarrando num abraço apertado.
- Eu queria poder compartilhar com você esse Natal, assim como todos os outros. Mas você sabe que eu quero o seu bem, e se ajeitar com sua família seria uma grande satisfação, e você sabe disso. – ele sussurrou no meu ouvido, beijando o local suavemente.
- Eu sei disso, mas... As pessoas dizem que o Natal é uma época em que temos que compartilhar as emoções com quem a gente ama. E bom... eu não vou estar com você. – cutuquei sei peito, fazendo biquinho e ouvindo a risada nasalada de .
- Vai ficar tudo bem, . Você sabe disso. Mesmo não estando juntos fisicamente, eu vou sempre estar perto de você... Aqui, olha. – ele colocou sua mão no lado esquerdo do meu peito. Meus olhos ficaram marejados e minha vontade de chorar se intensificava a cada segundo. – Agora vamos logo pro aeroporto, ou você vai perder seu vôo.
Peguei minha mala – gigante, diga-se de passagem – e descemos as escadas de nossa casa. O caminho até o aeroporto foi totalmente silencioso. Um silêncio cômodo e confortável, não aqueles silêncios constrangedores. Avistei de longe o Heathrow e apertei minha mão que segurava com força a alça da minha bolsa que estava no meu colo. estacionou e nós descemos do carro hesitantes, os dois. Ele segurou minha mão com força, me lançou um olhar confiante e me guiou até o interior do aeroporto. Sentamos nos bancos de espera e senti apertar nossas mãos. Violet Hill do Coldplay tocava no saguão do aeroporto. Ficamos em silêncio durante um longo tempo, apenas nos despedindo silenciosamente, até anunciarem a chamada para o vôo de Berlim. Me levantei rapidamente, virando de costas para e limpando as lágrimas teimosas que já caíam no meu rosto.
- Olha pra mim, . – virei para encará-lo e seu rosto mostrava um sorriso de lado, triste, mas incentivador. – Vai dar tudo certo, eu já te disse.
- Eu não quero ir, . Quero ficar com você. – enterrei meu rosto em seu peito e chorei alto. – Não quero ter que encarar eles, não quero ter ver o rosto de quem quis acabar coma minha felicidade. – funguei e olhei em seus olhos que me encaravam tristes. [ponha a música para tocar!]
- Quero que você vá e recupere sua relação com sua família, quero ver você completamente feliz. Não sabe o quanto me faz bem ver você sorrindo... Aquele sorriso que só você tem. – ele sorriu e limpou minhas lágrimas. – Agora acho melhor você ir antes que perca seu vôo enquanto eu dirijo pra rua Oxford pra encontrar minha mãe, antes que ela dê um ataque do coração. – Ele me puxou para um beijo doce. Sua língua fez o desenho do meu lábio superior e eu abri minha boca lentamente, aprofundando o beijo. Separei nossas bocas, peguei minha mala e lhe dei um último selinho.
- Eu te amo. – falei baixinho o ouvindo repetir minha frase. Saí para o portão de embarque, sentindo meu coração apertar mais do que o normal.

Christmas night, another fight
(Noite de Natal, mais outra luta.)
Tears we cried a flood
(Lágrimas que nós derrubamos; um dilúvio.)
Got all kinds of poison in
(Consegui todos os tipos de veneno,)
Poison in my blood
(veneno no meu sangue.)

Desci do avião, olhei atentamente para os lados respirando o ar puro de Berlim. O aeroporto Tegel estava movimentado e eu estava completamente perdida por ali, estava tão diferente de quando eu havia deixado Berlim. Procurei um táxi e (com meu Alemão um pouco enferrujado) pedi que ele me levasse ao endereço que estava escrito num pequeno papel. Depois de uns minutos rodando Berlim, chegamos ao bairro onde eu cresci e, para minha surpresa, absolutamente nada estava diferente. A casa amarela de dois andares e com um jardim extenso na frente estava intacta. Paguei o táxi e desci do carro, observei a casa e meus olhos se encheram d’água. Vi algumas silhuetas andando pra lá e para cá pela janela. Olhei no relógio; 22:47. A casa devia estar uma bagunça. Apertei o colar que havia me dado de aniversário de namoro alguns meses atrás e andei até a porta da casa, apertando a campainha e respirando fundo. Now or Never.

I took my feet
(Peguei a estrada,)
To Oxford Street
(para a rua Oxford,)
Trying to right a wrong
(tentando consertar algo errado.)
Just walk away
("Apenas vá embora",)
Those windows say
(aquelas janelas disseram,)
But I can't believe she's gone
(mas eu não acredito que ela se foi.)

Uma senhora dos cabelos escuros, pele clara e olhos azuis me olhava atentamente. Nenhum som saía de nossas bocas, nossos olhares sustentavam um ao outro. A mágoa estampada em nossos olhos, o orgulho falando mais alto do que a vontade de um abraço. O orgulho de prometer que não iria voltar e o orgulho de prometer que não iria aceitar a volta. Vi uma lágrima solitária rolar pelo seu rosto e fazer o caminho até morrer no canto de sua boca. Suas mãos trêmulas seguravam a maçaneta e a barra do avental florido que estava em seu corpo. Soltei a mala e enlacei meus braços envolta dela, finalmente. Senti seus braços me apertarem e sorri contra seu ombro. Mamãe havia me aceitado. Nenhuma das duas não falava nada. Não queríamos, não sentíamos a necessidade de falar. Não precisávamos de uma só palavra.

When you're still waiting for the snow to fall
(Quando você ainda está esperando a neve cair,)
Doesn't really feel like Christmas at all
(Não parece que é mesmo o Natal.)
Up above candles on air flicker
(Um grupo de velas trêmulas,)
Oh they flicker and they float
(Oh sua tremulação e seu fluxo.)
But I'm up here holding on
(E eu estou aqui em cima abraçando)
To all those chandeliers of hope
(Todos aqueles lustres de esperança.)

Não precisei de muito tempo pra poder conversar com todos e me sentir um pouco menos confortável. Mas de qualquer modo, meus pensamentos sempre voavam e aterrissavam em um só lugar: Oxford Street na casa dos . Estávamos todos sentados na mesa tendo a ceia de Natal, todos conversavam alegremente, como se minha volta não houvesse promovido impacto algum.
- E então, ? Como anda sua vida lá em Londres? – vovó perguntou, dando uma grande colherada no arroz do prato à sua frente. – Continua tirando fotos? – ela continuou e todos voltaram seus olhares pra mim.
- Ahn... C-claro, estou sim. Fui contratada por uma revista... – pigarreei e limpei minha boca com o guardanapo decorado que minha sempre fazia questão de comprar especialmente para o Natal. Olhei no meu relógio e vi que eram 01:23, sorri sozinha e fitei todos da mesa. – Bom, já é Natal pessoal. – as crianças se levantaram rapidamente, todos se abraçaram e eu fiquei apenas olhando e sorrindo. Logo eles vieram me abraçar e eu senti falta de abraçar uma pessoa... A única pessoa com quem eu queria realmente passar o Natal. Saí de fininho da sala de jantar, e subi as escadas, indo de encontro com a minha mala gigante. Peguei meu celular e digitei uma mensagem para que dizia: “Preciso de você. Skype now.” Tirei algumas roupas da mala até encontrar o que eu queria bem lá no fundo. Peguei o notebook e liguei o Skype, vendo a janela de de maximizar e o homem da minha vida aparecer sorrindo com um gorro vermelho em sua cabeça.

Like some drunken Elvis singin
(Como alguns Elvis bêbados cantando,)
I go singing out of tune
(Eu vou cantando fora de sintonia.)
Saying how I always loved you darling
(Cantando como eu sempre te amei querida,)
And I always will
(E eu sempre amarei.)
Oh when you're still waiting for the snow to fall
(Quando você ainda está esperando a neve cair,)
Doesn't really feel like Christmas at all
(Não parece que é mesmo o Natal.)

- To morrendo de saudades de você, e a propósito Feliz Natal meu amor. – ele falou doce e sorriu abertamente, fazendo com que algumas lágrimas escapassem dos meus olhos. – Ah não, por favor tudo menos chorar agora, economize para daqui a alguns minutos. – não entendi o que ele disse mas não dei muita importância.
- Eu também amor, eu queria muito estar aí com você. Mas aqui tá sendo legal sabe? Fui bem acolhida, não houve brigas nem desentendimentos... Pelo menos não até agora. – falei um pouco triste pensando numa possível briga.
- Eu disse que ia dar certo, não disse? Bom, antes que eu perca a coragem, eu queria te dar seu presente de Natal... – ele fez uma pausa e respirou fundo. – Você sabe mais do que ninguém que eu não conseguiria passar o resto da minha vida com alguém que não seja você. – algumas lágrimas escaparam dos meus olhos e eu funguei alto. – Quero que você abra o bolsinho na frente da sua mala. – o olhei com uma cara confusa e fui ao encontro da minha mala. Abri o bolsinho de fora e algo reluzia lá dentro. Enfiei a mão no bolso e retirei de lá um anel com uma pedrinha de diamante em cima. Voltei pra frente do notebook e olhei incrédula para . – E então? Quer se casar comigo? – ele perguntou inseguro e eu sorri abertamente.
- Quero, quero, quero... Claro! Eu te amo muito meu amor. Queria poder te encher de beijos e abraços agora. – eu falei quase não contendo minha euforia.
- Me desculpe por não pedir pessoalmente. – ele disse triste e vi que seus olhos não eram direcionados a mim. – A senhora permite que eu me case com sua filha, senhora ? – ele perguntou e eu fiquei desorientada. Onde ele estava falando com minha mãe? Olhei para trás e ela estava parada na porta, sorrindo e com as bochechas molhadas de lágrimas.
- Claro! Me desculpe por tudo , me desculpe por tudo minha filha. – ela se aproximou de mim e beijou minha cabeça. – Me desculpem por tudo. – sorri abertamente e abracei minha mãe com força

Those Christmas lights
(Essas luzes de natal,)
Light up the street
(Iluminam a rua,)
Down where the sea and city meet
(Onde o oceano e a cidade se encontram.)
May all your troubles soon be gone
(Que todos seus problemas vão embora logo)
Oh Christmas lights keep shining on
(Oh luzes do natal, continuem brilhando.)
Those Christmas lights
(Essas luzes do natal,)
Light up the street
(Iluminam a rua.)
Maybe they'll bring her back to me
(Talvez a tragam de volta para mim.)
Then all my troubles will be gone
(Então todos meus problemas irão embora.)
Oh Christmas lights keep shining on
(Oh luzes do natal, continuem brilhando.)

Passamos alguns minutos na frente do notebook conversando com , contando para minha mãe como estávamos morando juntos em Londres e ela nos contou sobre o que ela havia passado em Berlim. No fim, tudo havia acabado bem. Afinal, aquele Natal havia sido meu problema... Mas ao mesmo tempo a solução dele, e eu não poderia estar mais feliz na minha vida.

Oh Christmas lights keep shining on
(Oh luzes do natal, continuem brilhando.)

Fim


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