Eternity

Fic por: Panda
Vencedora do Challenge #002 do All About Fics
Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios.


Prólogo.



Aquela era uma época difícil. A peste assolava metade da Europa, matando milhares de humanos indefesos, puros sem a cura medicinal. Ainda assim, Paris não fechava as portas do luxo que era a sua cara. Assim tive as minhas melhores vítimas, cedendo ao encontro de um suposto homem belo e saudável, escondido em tecidos caros, assistindo óperas e mais espetáculos. O que eu não esperava, era dentre os meus espetáculos particulares, encontrar uma vítima indefesa que pudesse me cativar, num legítimo romance de amor.

The end is what matters.


Inglaterra, North Yorkshire;

A mínima casaca de pele de urso que usava ainda não era suficiente para cobrir-me do frio do norte da Inglaterra. Um dos meus melhores por quês para odiar aquele lugar em que andava, era, com certeza, o frio. Se achas que vampiros não sentem frio, pois sim, eles sentem, eu sinto. E que sacrilégio! Esqueci-me de apresentar a minha pessoa (se há ainda algo de pessoa em mim): Eu sou o Vampiro Lestat. Eis que estamos em 1830, e eu estou a vagar por uma estrada escura e banhada de neve, perseguindo uma mulher. Não, não estou caçando-a ou algo do tipo. Ainda que latente o meu desejo sobre o seu sangue, eu a desejo mais ainda de outra maneira. Só que a estúpida tinha de brigar comigo por que queria casar! Casar! Ah vamos, casar um vampiro é hipocrisia.
Faz hoje dois meses que ela me dopou, fez de mim um touro apaixonado, e depois jogou-me para fora da sua casa na França. Uma atrevida, devo acrescentar. E eu um orgulhoso, não a procurei logo. Não foram precisas mais do que sete noites deitado na minha tumba, para então perceber o quanto eu precisava dela. Voei – literalmente – pelas ruas de Paris para encontrá-la, e nada encontrei além de pó na casa que morava. Ela havia partido. E eu estava com meu coração dependente de uma maldita humana.
Quando finalmente avistei a pequena casa coberta da neve mais branca e pura, cheguei a sentir certo alívio. Uma única casa no topo de uma colina. Só poderia ser ela, que gostava de se esconder, de ficar longe da sua própria raça, apenas para ter mais espaço. Apurei meu olfato, até sentir o cheiro do seu sangue, facilmente reconhecível, a pulsar forte pelas veias curtas. Apressei o passo, chegando rapidamente até a porta do casebre. Bati três vezes e esperei debaixo de insistentes flocos de neve que tocavam a pele do meu rosto – descoberta – que escorregavam, já que eu estava igualmente frio. Ainda que tivesse me alimentado a pouco, na própria aldeia em que minha maldita morava, o sangue recém colocado para dentro do meu corpo não conseguia vingar, devido a temperatura externa extremamente baixa.
Por detrás de cadeados, ela surgiu, entreabrindo apenas a porta.
- Eu não acredito que veio até aqui. – ela disse entredentes. Parecia ter acabado de sair da cama, eu via seu olhar sonolento dar boas-vindas a mim, aos poucos. Captei a gola alta da sua camisola, e reconheci logo o seu traje.
- Minha , é assim que me recebes, tão rude? Voltei para você, meu amor. – eu lhe disse com um largo sorriso. – Não vão me convidar para entrar?
- Não. – resmungou. – Veio se desculpar e finalmente me pedir em casamento?
- Não... – disse indignado – Será que a única coisa que vocês, mulheres, pensam, é em casamento?
O fechar brusco da porta foi automático.
- Perdeu seu tempo vindo até aqui então, Lestat. Vai embora. – ela gritou do outro lado da porta.
- Ora ! Em que diabos um casamento vai ajudar no selar do nosso amor? Eu te amo, você me ama, não precisamos da Igreja pra isso, certo?
- Você perguntou se tudo que nós, mulheres, pensamos, é em casamento. Pois então. Que maior infelicidade seria passar o resto de nossas vidas sem ninguém ao nosso lado? Humanos pensam em felicidade, Lestat, e a maior felicidade do mundo é morrer sabendo que alguém se importava com você. – ela gritou do outro lado da porta. Estava me deixando furioso com aquela teimosia. – Eu já tenho 24 anos, eu vou ficar para titia! Para titia, Lestat!
- Não vai. Se você me abrir a porta, eu posso te mostrar que não há nada de titia em você, minha .
Ela abriu a porta daquele mesmo jeito, ainda entre cadeados e correntes que ali ficavam prendendo e impedindo que a porta fosse aberta por completo.
- É, eu realmente não tenho cara de tia, não é? – perguntou, com um olhar de misericórdia digno de uma orfã, completamente irresistível. Seus olhos escuros brilhavam mais perfeitamente à noite, quando havia apenas as estrelas e a lua para iluminá-los. Os longos cabelos, agora eu os via, estavam presos numa trança quilométrica, fazendo-os tocar perto do seu ventre. Ela era linda, a minha maldita . Uma humana esplêndida.
- Não, , você não tem. Agora vamos, deixe-me entrar.
- Não. – ela abaixou o rosto, parecendo magoada. – Eu sei que você ficou com a Charlotte, que você a beijou antes de matá-la. Eu sei que você faz isso com toda humana bonitinha, antes de cravar esses seus dentes pontudos nelas. Ótimo, virei uma titia com chifres!
- Isso se eu não matá-la também, como eu fiz como a Charlotte. Você quer, , um beijo lúgubre? – eu perguntei-lhe.
- Se isso significar que vamos ficar juntos para sempre...
- Se você quer ficar para sempre comigo, fazer com que o padre diga “Até que a morte nos separe” é meio estranho. Eu já estou morto, .
- Eu sei como lhe dar vida. – ela sorriu, com as bochechas a ficarem vermelhas.
- Então abra essa porta e me deixe entrar.
Ela me olhou assustada, seus olhos a lacrimejarem. A mão feminina surgiu daquela camisola de seda, indo em minha direção. Eu sabia o que ela ia fazer. Aproximei o meu rosto e peguei a sua mão delicada, colocando-a por sobre minha bochecha. Ela então passou o seu polegar perto dos meus lábios, como costumava fazer, com aquela pele quente.
- Todo mundo fala por aí que eu fiquei para titia... – ela disse com a voz rouca, a falhar. Eu ia falar, mas ela me interrompeu muito antes. – Eu não me importo com o que os outros dizem. Não sou idiota. Eu sei que eu sou mais do que um casamento. Mas quando eu percebi, que estava sozinha de novo, que você poderia ir embora a qualquer momento... Quantas mulheres caem e morrem por você, Monsieur Lestat de Lioncourt? – ela alisou meu queixo, afastando a mão.
Segurei a sua mão, deixando-a mais perto do meu peito. Eu gostava demais da sua mão, gostava do toque quente. Quando ela virou o pescoço de lado, avistei as minhas presas que um dia já foram fincadas ali. E fora com essas mãos que ela me parou, não se debatendo, mas alisando o meu rosto, daquele mesmo modo...
- Podem haver milhões aos meus pés. Eu não me importo com elas. Eu me importo com você. – suspirei. – E você vem brigar comigo porque quer casar.
me soltou um olhar triste, desolado. Tirou a sua mão do meu peito e fechou a porta. Sondei seus pensamentos, já a imaginar que ela não se importava com essas coisas de amor que lhe falava, mas então percebi que era a sua intenção apenas abrir a porta. Ouvi o som dos metais a se debaterem enquanto ela destrancava os cadeados e retirava as correntes. Ouvia também o som que fazia o seu coração, a pulsar cada vez mais forte, por debaixo de tanto pano em que se fazia a camisola.
- Eu quero que você me mate, Lestat. Mate-me de amor. – me disse, com aqueles olhos pedintes. A porta agora aberta permitia que eu a visse perfeita, vestia apenas a camisola, que lhe cobria desde a metade do pescoço até os pés; o tecido arrastava no chão. Com o vento frio que vinha de fora, ela rapidamente se encolheu para cobrir-se. – Eu quero a eternidade.
Olhei para ela confuso. A eternidade? Isso quer dizer que queria ser um vampiro, como eu? Se dissesse que sim eu ia sorrir, adoraria tê-la ao meu lado, mesmo com todo o meu fracasso nas transformações e nos meu companheiros.
- Não quero estar fadada a viver nesse mundo para sempre, se é o que pensas. Eu não sei viver aqui, eu não sei viver, quanto mais para sempre.
- Então eu não te entendo. – eu disse, entrando no casebre e fechando a porta, poupando-lhe do ar gelado que vinha de fora.
- Você vai entender... – ela disse, abraçando a si mesma, com aquele mesmo olhar desolado.
- Isso quer dizer que você desistiu do casamento?
- Sim. Eu aceito ser uma... noiva-cadáver, meu caro Vampiro Lestat. – ela sorriu. – e no que me resta de vida...
- Pare de falar de morte como se você fosse fã dessa palavra.
Ela sorriu enigmática. Tentei sondar seus pensamentos, mas ela falava comigo pelos próprios pensamentos também. Então, desistindo de entender a atrevida mulher, passei a encará-la. A sua beleza estonteante seguiu os meus olhos. Os seios estavam tão bem colocados por sobre a gravidade, apontavam um horizonte por debaixo da camisola de seda. Os quadris robustos faziam as linhas curvas do corpo, assim como a pequena cintura. Tímida, ela sorriu e virou-se.
- Pare de olhar desse jeito para mim, eu estou sem espartilho para cobrir minhas imperfeições.
- Que imperfeições? – perguntei-lhe, abraçando-a por trás. Ela novamente deu um jeito de se virar para mim.
- Eu é quem pergunto, Monsieur, que imperfeições? – ela disse, sorrindo, admirando o meu rosto. Retirou então vagarosamente o meu casaco de pele, deixando-o cair sobre o chão. Desabotoou o colete de veludo negro que eu usava, tocando o meu abdômen e peito com aquelas mãos silenciosas.
Estávamos ainda no pequeno corredor que dava para a sala de estar e jantar. Ali dentro era tudo tão pequeno, eu mal podia me mexer sem bater em alguma coisa. Daqueles lábios quentes, roubei um beijo, cujo gosto cintilava em minha saliva. Desenhei o seu corpo com as mãos pesadas, sentindo as curvas, as cicatrizes, os arrepios. Ela suspirou fundo e fez um esforço para se desvencilhar-se de meus braços. Eu cedi.
- O que foi agora, ? – eu perguntei. Ela nada falou, apenas sorriu e correu em direção a um piano empoeirado no fim da sala. Sua trança começava a se desfazer com o impacto, mostrando os cabelos que, tão teimosos quanto a dona, não aceitavam ficar presos por muito tempo, eram demasiados lisos.
Eu não tinha a mínima idéia do que estava a planejar naquela noite – ou diria madrugada? – mas eu também não tinha vontade de perguntar. Era uma noite que, com certeza, eu ia guardar para o resto da minha vida. O dia da nossa estranha reconciliação. Porém, o que estava por vir, ainda mais para mim, permanecia em completo mistério.
sentou no pequeno banco à frente do piano, e chamou-me com a cabeça para chegar mais perto, o que eu fiz rapidamente, sentando ao seu lado. Abriu e tocou algumas teclas, como se testasse. Depois, olhou-me com aquele sorriso enigmático. Ela sempre sorria, e eu nunca sabia por quê.
- Ouça cuidadosamente, para você se lembrar desse dia. – ela disse antes de começar uma melodia belíssima. Com meus ouvidos de vampiro, eu ouvia com mais clareza cada nota. Que linda era a mulher de camisola a tocar piano.
- Gravou na memória?
- Sim.
- Agora faça aquilo que lhe pedi. Mate-me de amor.
- Você tem certeza do que está pedindo?
- Eu posso morrer agora, pelas suas mãos, ou daqui a algum pouco tempo, quando a peste negra bater à minha porta. Eu sei o que está acontecendo, Lestat. Eu não vim para cá simplesmente porque queria voltar ao meu país.
Numa última tentativa de sondar a mente de e achar algo útil, ela finalmente cedeu imagens da sua família a morrer pela peste, em Paris. Imagens de como ela me conheceu, numa tentativa minha de sugar o seu sangue até a morte, e imagens dos nossos encontros em óperas, quando ela me reconheceu como seu assassino. Ela me cedeu a imagem de quando a beijei e disse-lhe que era um vampiro, e ela prometeu guardar segredo. também cedeu seus pensamentos, sobre o amor. Ela me amava, realmente me amava, como eu não tinha sequer noção; e no fundo de toda a sua pose de mandona e insolente, era apenas uma menina inocente, que muito cedeu perdeu a ingenuidade.
- Essa casa... – ela falou, deixando seus pensamentos agora virem á tona em voz alta – meu avô construiu. Era para duas pessoas apenas, ele e a vovó. Eu nasci no celeiro aqui do lado. E a casa que era para duas pessoas, virou quase uma pensão. – ela sorriu, relembrando a infância.
- Não me digas que quer morrer. Eu viajei tanto para vir lhe pedir para me ter de volta, e você simplesmente vem me pedir para morrer? E me deixar nesse mundo de amargura?
não respondeu, olhou-me pesarosa. E então me abraçou forte. Eu sentia seus seios quentes tocarem no meu peito frio, o que era delicioso. se afastou brevemente, e novamente calou quaisquer das minhas futuras palavras com um beijo. Não mais relutante, beijei-a com a mesma intensidade.
Avistei um tapete que cobria boa parte da sala. Segurei pela cintura,fazendo-a entrelaçar as pernas pelo meu quadril, e então a carreguei, deitando-a no chão daquele tapete. A melodia que ela tocara ficava repetidamente tocando na minha mente, enquanto eu a despia, e também via as minhas roupas serem jogadas de lado.
Voltei à órbita quando senti um corpo que exalava fervura em baixo de mim. Era ela, a mulher que eu perseguia. Eu não estava caçando-a ou nada do tipo, ainda era algo muito maior que me levava a ela, apesar do sempre latente desejo que tinha pelo seu sangue. Foi então que a possui, pela última vez.
Sentia-me cada vez mais humano a cada investida, a cada arfar que dava – por mais que meus pulmões cadavéricos não precisassem de ar. Eu gostava também do som musical que era a voz dela se propagando perto do meu ouvido. Só que toda aquela animalidade acabava por buscar em mim o meu instinto vampírico. Eu ouvia mais intensamente aquele coração bombeando sangue, aquelas artérias de um delicioso pescoço pulsando, convidando-me a uma mordida, uma sugada.
Beijei cauteloso o pescoço da amada, sentindo-a arfar forte. E, perdendo completamente a sanidade e consciência, toquei o seu pescoço com os dentes, arranhando-a e enfim mordendo. Parei com os movimentos dos quadris para sugá-la com mais destreza. E lá estava ela, esvaindo sua vida em meus braços. Apenas prazer deleitando no escuro de seus olhos, e eu nem precisava olhar para ter certeza. Quando vi que estava para morrer, retirei – sempre relutante – as minhas presas da sua pele fina.
- Agora... – ela respirava com dificuldade -... estamos para sempre unidos na eternidade. Você, imortal. E eu, morta... – ela sorriu aquele sorriso enigmático -... para sempre.

Epílogo.



De muitas das mulheres que já amei, Devon era, com certeza, uma das mais marcantes. A melodia que ela tocou ao piano sempre me assombrou nos meus muitos momentos de solidão, passeando na imortalidade. Que nem um casamento, ela estava comigo; porém do jeito mais obscuro e lúgubre: Estávamos juntos numa eternidade.

Fim

Nota da autora: Mais uma de Contos Vampíricos. Bem macabra para um challenge de dia dos namorados, porém, tem um significado bonito. Digo, se souber enxergá-lo. Eu amo usar o Lestat de Lioncourt, visto que ele é um personagem muito bem feito (e maravilhoso); além do mais, sou fã/tiete da Anne Rice e seus contos. Ainda hei de completar minha coleção!
Espero que tenham gostado. Críticas sempre bem-vindas desde que tenham fundamento. Sou open-mind.
Feliz dia dos namorados, para quem tem e para quem não tem! Porque até quem não tem namorado, merece um feliz 12 de junho. (Risos)
Xxx
Panda (@pandamour)



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